Os tempos modernos em pouco se desvencilharam das antigas noções políticas. A briga comum às civilizações, entre o conservadorismo e o progressismo, o poder do Estado e sua dissolução, os valores a serem seguidos e quais estraçalhar; todos estes tópicos têm raízes primitivas, presentes desde o primeiro instante de intelectualidade, quiçá ainda antes de a retórica adquirir alguma roupagem formal. Nos dias de hoje, entretanto, este mesmo duelo milenar encontra, naturalmente, um novo conteúdo, que se encaixa melhor às atuais correntes de pensamento, acontecimentos geopolíticos e modos de vida, ainda que, formalmente, se mantenha idêntico aos seus antecessores. Uma particularidade, cujo posto entre o que há de mais relevante na política moderna aparenta ser eterno e imutável, é a guerra cultural, de viés não só religioso, mas também social, entre o que se convencionou chamar de Ocidente e as demais culturas, estas não tão homogêneas, não tão bem catalogadas, e, de certo, também pouquíssimo conhecidas. Aqui, refiro-me à grande porção do mundo que se encontra externa ao Ocidente, não em sua afecção geopolítica, mas intrinsecamente cultural. O Brasil, ainda que politicamente mais próximo do bloco oriental nos dias de hoje, porta consigo em sua constituição e gênese social o carimbo do Ocidente, especialmente no que diz respeito à moral, política interna, língua, religião e, enfim, costumes em um geral.

É notável o quão ampla se tornou a polarização entre estas duas margens, Ocidente e Oriente, a um ponto em que o choque se converteu em um "quando", e não mais um "se". Talvez inevitável, o terreno à guerra final, não necessariamente bélica, se cria a cada dia, e pode-se dizer, fatalmente, que culminará na queda de uma das fatias. Não digo que a gravidade de tal polarização seja facilmente verificável de uma perspectiva mundana, diária. As raízes desta profunda separação pressupõem, antes, um passo atrás, aos dogmas mais secretos e irracionais de cada um destes povos. Por sorte, à parte da imensa dificuldade de fazer o retrato de um povo a partir de cada indivíduo, o caminho contrário, não do particular ao universal, mas do universal ao particular, é um tanto mais revelador. Basta uma simples inspeção acerca das sociedades, governos, costumes e fenômenos sociais que se projetam para além do indivíduo em sua delimitação particular para que a diferenciação antes mencionada torne-se cristalina como água. Falo, abaixo, a respeito dos traços genéricos a um país ocidental mais detalhadamente.

Em primeiro lugar, é preciso esclarecer que a distinção fundante à civilização ocidental se centra no individualismo. Da prática democrática aos contratualistas, o homem ocidental é um sujeito livre, com vontades particulares, que se junta aos demais por entender o estado de natureza como mais prejudicial a si mesmo que a alternativa comunitária e parcialmente restritiva sob a qual se sustenta uma sociedade. Neste sentido, esta cooperação possui um vetor racional, e deve ser rejeitada na medida em que o indivíduo já não vê nela um benefício. É óbvio que esta premissa filosófica carrega a semente de diversas instituições que viriam a configurar o Ocidente: a democracia, os direitos humanos, e, o que é especialmente notável, o progressismo. Minar os valores tradicionais é uma atitude diretamente relacionada à rejeição do coletivismo, na medida em que, porque o indivíduo ocidental porta consigo a liberdade de decidir o que quer para si sem ter de levar em conta a afeição alheia, ele tem um impulso metafísico à rejeição do conceito de hierarquia. Por que a mulher não pode ter o direito de pintar o cabelo ou se vestir como bem entende, se esta é uma atitude, a princípio, diretamente relacionada à sua própria imagem? Por que não podemos ter acesso a substâncias psicotrópicas se quem vai consumi-las somos nós, e seremos nós quem sofreremos as consequências deste consumo? Por que não podemos ofertar e demandar prostituição, se é uma transação financeira entre dois indivíduos que, consensualmente, têm interesse, cada um em algo distinto, nos elementos envolvidos à transação em questão? A negação de qualquer restrividade ao ego, a si mesmo, é o que configura a sociedade ocidental, e o que corresponde à libertação do sujeito em relação aos valores tradicionais que anteriormente o prendiam: o fim do patriarcado, a revolução sexual, a diminuição dos tabus sexuais e sociais. De certa forma, portanto, o homem ocidental se figura relativamente próximo ao estado de pura selvageria, ao estado de natureza, onde não há regras a serem seguidas e não há uma visão holística sobre a comunidade. Ele se afasta da ponderação coletiva, que consiste em definir o que deve e o que não deve ser permitido não em função do individual, mas das consequências, diretas e indiretas, ao todo. O homem ocidental (ou, ao menos, liberal), neste sentido, se choca, em sua liberdade axiomática, aos próprios pressupostos a uma civilização saudável. A tese do presente texto é que, precisamente por isso, os frutos do iluminismo, nos quais se inclui o Ocidente moderno, devem ser considerados incivilizados: são contraditórios.

A fim de esclarecer o que quero dizer com isso, tratemos de inspecionar uma definição típica à antropologia, presente na maior parte dos dicionários: "civilização é qualquer sociedade complexa caracterizada pela estratificação social, urbanização e sistemas simbólicos de comunicação além das línguas gestuais ou faladas e sistemas de escrita". Nota-se que, em certo sentido, a rigidez é parte fundante a qualquer grupo: porque trata-se de uma união de entes distintos, cada um com vontades particulares, uma harmonia só poderia ocorrer se todos tivessem as mesmas vontades ao mesmo tempo, ou, alternativamente, se ambos pudessem coexistir à parte de vontades distintas. O caso humano é, claro, o segundo. E, precisamente por haver uma distinção no que compete à intenção de cada agente, surge a necessidade da restrição individual. Argumento, aqui, que, em um grupo social, deve-se assumir uma visão totalizante, holística, de cada atitude tomada. Alguém pode estar disposto a sofrer as consequências à saúde oriundas do fumo, por exemplo, mas, na medida em que fumar em um ambiente público traz desconforto ao restante da comunidade, este sujeito, se virtuoso e civilizado, deve renunciar à sua liberdade em prol do todo, isentando-se de fumar naquele local, ainda que, por si mesmo, desejasse fazê-lo. Analogamente, as decisões quanto às vestimentas, ao tom de voz, ao que é e não é propício em um geral, devem ser tomadas desta mesma perspectiva generalista, enfatizando as consequências da própria decisão à comunidade, e não ao indivíduo.

É evidente que seria ingênuo crer que o cultivo ético de uma sociedade seria eficaz o suficiente para que, autonomamente, todos os membros dela fossem proativos em seguir os ritos sociais necessários à harmonia comunitária. Esta é a posição do confucianismo clássico sobre o qual dissertarei daqui a alguns parágrafos. Entretanto, como que em uma evolução intelectual natural, a sociedade chinesa adotou, neste sentido puramente estatal, o legalismo, um exato oposto político, que advoga por um Estado forte. Justamente para solucionar o problema apresentado, o Estado, mediador imprescindível e idealmente aristocrático, absorve um caráter paternalista obrigatório, banindo, se retomarmos o exemplo de poucas linhas atrás, o fumo em público. O Estado atropela a liberdade individual, coagindo o cidadão a obedecê-lo, porque, ainda que o cidadão não possua a noção de que o fumo é prejudicial à comunidade, ou a possua, mas não possua a virtude necessária à decisão de não fumar para resguardar os demais, o bom estatista, mais intelectualizado e virtuoso que as massas, terá, e, por meio de decretos estatais, assumirá a posição de decidir pelo povo o que é melhor ao próprio povo, assegurando que mesmo os menos capazes e justos cultivem uma vida fértil, saudável e graciosa. Autoevidente é que, para tanto, o estatista precisa de poder o suficiente para ignorar as súplicas dos intelectualmente inferiores e resguardá-los, ainda que contra a sua própria vontade, o que faz do autoritarismo uma implicação natural da problemática. Neste sentido, poderia-se dizer que os maiores problemas associados à forma ocidental atual de se administrar uma sociedade, e também à moral ocidental moderna, são todos oriundos de uma mesma premissa inescapavelmente contraditória ao próprio conceito de civilidade: o individualismo.

Sob uma ótica distinta, entretanto, encontra-se o Oriente. A nação que mais me chama a atenção, e que melhor conheço, razão pela qual devo descrevê-la em maiores detalhes aqui, é a China, sob o confucianismo. Esta tradição ética assume a posição holística previamente citada em se tratando do funcionamento social e se baseia em alguns pilares que, para fins pragmáticos, reduzirei extensivamente, focando em alguns pontos que julgo convenientes à discussão aqui exposta. São eles (1) os ritos sociais; (2) o estudo; (3) a piedade filial.

Os ritos sociais, na tradição confuciana, são um método de controle social. Confúcio entendia que os desejos e impulsos humanos são naturalmente caóticos. À parte do debate quanto à natureza humana (no qual afilio-me a Mêncio em dizer que temos uma forte tendência natural à bondade, a propósito), bons ou ruins, humanos, especialmente em sociedades complexas, eventualmente têm desejos contraditórios. Neste caso, se todos agem tendo como finalidade a satisfação das próprias necessidades, a sociedade humana colapsa, ou, ao menos, se torna mais prejudicial a cada um de nós em algum grau. Portanto, ao seguir de bom grado o Li (禮), que consiste em normas rígidas de comportamento, linguagem e respeito às hierarquias, isto é, ao voluntariamente restringir sua própria liberdade em prol da harmonia coletiva, a coesão social se torna uma consequência natural. Em outras palavras, a existência de etiquetas padroniza as interações humanas para que o atrito social seja reduzido. Não aumentar o tom de voz em público, não utilizar vestimentas escandalosas no cotidiano, vestir-se adequadamente em funerais ou casamentos, estar disposto a ceder assentos aos mais velhos, etc., são exemplos de rituais sociais saudáveis. Não somente estes, mas as próprias cerimônias tradicionais, têm valor. Uma cerimônia tradicional de casamento, por exemplo, onde se festeja, se faz promessas, entre outros espetáculos, dá um caráter mais especial à união entre o casal, aprimorando os laços e gerando memórias que podem vir a facilitar a vida conjunta nos longos anos que se seguem consequentes à união. Estes são os ritos do confucianismo.

Xue (学), o estudo, ou cultivo do intelecto, diz respeito à necessidade de gerar o discernimento crítico necessário ao refinamento do caráter. Apesar de a tradição chinesa preferir a experiência à abstração, e, neste sentido, não ter gerado, historicamente, intelectuais que buscavam defender os próprios argumentos dedutivamente, o estudo histórico e aforístico ainda lhes era muito importante. É preciso estudar a história para aprender com os erros do passado e extrair da prática, da vitória e do erro, lições que podem auxiliar nas tomadas de decisão no presente; a poesia, a fim de estimular a sensibilidade espiritual, repassar histórias reais e mitológicas às próximas gerações e assegurar a eternização do passado do próprio povo na alma dos atuais cidadãos, garantindo uma cultura bem preservada, posto que esta identificação cultural aumenta o sentimento de união entre os distintos indivíduos de um povo; os rituais, etc. O intelectual confuciano estuda para fins pragmáticos; está interessado em garantir que suas decisões diárias sejam justificadas por uma bagagem concisa de conhecimento e reflexão, e não instintos ou paixões cegas. Na história chinesa, o maior prestígio ao qual um intelectual poderia se prestar era o de obter bom desempenho nos rígidos exames imperiais, os concursos públicos inéditos e, portanto, mais antigos da história humana. Neles, não eram testados conhecimentos particularmente mecânicos, mas a capacidade verbal do aplicante, e, principalmente, o quão eficiente era o estudioso em promover propostas realistas e praticáveis a certos problemas governamentais. O confuciano, assim, é um homem que vive e estuda para governar, frequentemente buscando se aprimorar nesta arte. Como no laço que une a piedade filial à sociedade, como veremos a seguir, os chineses também amarravam o estudo a ela: o objetivo de cada cidadão era aprimorar-se a ponto de ser competente o suficiente para a governança, sendo governar o ato mais aristocrático passível de se conceber, dado que se alguém for capaz de governar, também será, por consequência, capaz de viver plenamente em todos os aspectos menores da vida, como, por exemplo, na concepção de uma família, na criação de um filho, e assim por diante.

Por fim, Xiao (孝), a piedade filial, que segue um caminho inverso, mas concomitante, ao cultivo do intelecto: é o treino básico de cidadania. Um império coeso parte de uma mesa de jantar coesa. Ao aprender a respeitar, obedecer e cuidar dos pais dentro de casa, o indivíduo internaliza a estrutura de autoridade e a ideia de direitos e deveres para com a sua comunidade. Quando se aprende a ser um bom filho, naturalmente se aprende a ser um bom cidadão e a respeitar as leis do Estado. A relação hierárquica, porém, não é unilateral. Na mesma medida em que os filhos, a face inferior, têm deveres específicos para com os pais, os pais, a face superior, têm deveres para com os filhos. Aos confucianos, a vida familiar é, em certo sentido, uma miniatura da relação do Estado para com seu povo, e, por isso, boas famílias tendem a gerar boas sociedades. A família ideal, composta por um homem e uma mulher, o é precisamente porque cada elemento, o masculino e o feminino, têm tendências comportamentais distintas, e são capazes de ensinar à criança os dois lados da moeda, a fim de que cresça completa. Eu partilho desta tese, hoje, porque, ainda que haja uma gama de exceções, a tendência estatística, oriunda da diferença hormonal, me parece muito verdadeira, e, inclusive, corroborada por metaestudos científicos.

A junção destes três pilares concebe uma civilização ideal, mas, antes disso, concebe também um cidadão civilizado. Nota-se que o confucianismo é profundamente tradicional. É este espírito confuciano, ainda muito influente na Ásia do século XXI, que me faz crer que a cultura chinesa seja, em um geral, superior em muitos sentidos. Entretanto, no cerne desta tradição, há uma divergência fundamental em relação ao Ocidente. O pensamento iluminista costuma avaliar a civilidade pela proteção da autonomia pessoal, enquanto que o quadro tradicional chinês a avalia por meio de um organicismo. O indivíduo não é um átomo isolado, mas um nó em uma teia de relações sociais (piedade filial, cidadania, comunidade). Assim como uma célula deve funcionar para a saúde do corpo, o indivíduo encontra sentido, segurança e propósito ao contribuir para o todo. Uma sociedade que prioriza os desejos individuais em detrimento do coletivo, como as ocidentais, é caótica, indisciplinada e, em última instância, mais próxima de um estado de natureza (incivilizado). Seguir os ritos, seja na forma como se trata os pais, como um governante trata seus súditos ou nas interações sociais cotidianas, estrutura o comportamento humano e nos ajuda a dominar os impulsos brutos e animalescos dos quais, enquanto animais, partilhamos, transformando-os em padrões sociais previsíveis e harmoniosos.

Na China, a busca intelectual estava historicamente vinculada ao desenvolvimento moral e à arte de governar. Idealmente, o Estado deveria ser governado não por aristocratas de sangue, mas por uma aristocracia de virtude e intelecto (os Junzi (君子), príncipes morais). Uma sociedade governada por pessoas sábias era, assim, vista como o ápice da humanidade. A fim de melhor compreender esta conclusão, me parece interessante explicar o antigo conceito de culturalismo na visão chinesa. Historicamente, a distinção entre um chinês (华夏) e um bárbaro (夷) não era racial, mas inteiramente cultural. Se um grupo estrangeiro invadisse a China, mas adotasse a língua chinesa, os sistemas burocráticos, a moral confucionista e os ritos sociais, ele efetivamente se tornaria chinês, em um processo que os historiadores chamam de sinização. As dinastias Qing, manchu, e Yuan, mongol, são exemplos emblemáticos. Como a cultura chinesa era vista como um veículo universal de harmonia social, a China não era considerada uma civilização entre muitas, mas sim a única alternativa. Ela se transmutou, por toda a Ásia, em sinônimo de civilidade, e desviar-se dela passou a significar afastar-se da ordem e caminhar em direção ao caos. Esta premissa, a princípio, é uma visão asiática histórica em relação ao confucianismo, mas, a mim, se revela como ideal ainda hoje. Soa-me como um guia perfeitamente plausível de como os membros de qualquer comunidade, do governante ao camponês, devem se comportar. Compromissar-se com os três pilares confucianos revela-se, a mim, um dever universal, que não se fundamenta em uma derivação dedutiva originada de axiomas lógicos, mas das próprias necessidades práticas surgidas da união de humanos em comunidades complexas. Neste sentido, é claro que qualquer um pode rejeitar estes deveres e compromissos, mas, ao fazê-lo, estará rejeitando também a maior força humana, centrada na capacidade de conceber laços sociais profundos, e, neste sentido, estará se reduzindo, também, ao posto de selvageria anterior às primeiras formações humanas.

[1] Existem muitas considerações que não foram abordadas, mas deveriam, em certos pontos do texto. Entre elas, (1) a possibilidade de o autoritarismo sempre tender a maus governantes, e, portanto, maus resultados, sendo a democracia ineficiente, mas preferível, o que discordo, e explico brevemente única e exclusivamente aludindo a exemplos históricos. Argumento que, em toda a história, a maioria esmagadora dos governos foi autoritária, e, ainda assim, incontáveis civilizações proliferaram extensivamente; (2) a de o Ocidente não ser iluminista per se, e possuir um tradicionalismo anterior ao liberalismo, no qual se encerra alguma civilidade similar à chinesa. Com isto, concordo. O texto tem como fim apontar a selvageria do atual Ocidente, e não do Ocidente histórico em um geral, tampouco de todas as correntes de pensamento presentes nele, mas da mais relevante no agora, a liberal; (3) de a China, por mais confuciana que fosse, ainda passasse, historicamente, por muitos momentos de corrupção, traição, má governança, etc., o que é uma observação obviamente verdadeira, mas que, no entanto, não exime o fato de o confucianismo ser uma influência contrária à corrupção, que a desincentiva e reduz sua probabilidade de ocorrer, ao contrário do individualismo ocidental, que, na minha visão, está intimamente relacionado à decadência de qualquer povo que o adota.

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