Há três bases fundamentais à metodologia analítica de Deleuze e Guattari, responsáveis por sustentar o que vem a ser a esquizoanálise. Estas são divisões que relacionam conceitos, mas também devir, e englobam tudo o que se queira a pensar, seja material, seja imaterial. As categorias, ou superfícies, são a superfície de produção, a superfície de registro-controle e a superfície de consumação. Devido à irrelevância desta última, que simplesmente constata, ao invés de se movimentar como as demais, não percamos muito do nosso tempo inspecionando-a.

No que diz respeito à superfície de produção, Deleuze propõe se tratar de um fluxo maquínico contínuo, eterno, imparável, infinito e sem direção. A analogia com a esquizofrenia não diz respeito, exatamente, ao todo da enfermidade mental, mas, antes, à lógica do esquizofrênico, da loucura: a do caos, a de pouca ou nenhuma imposição e a da instabilidade absoluta. A superfície de produção, como uma máquina energética, produz, se reproduz e expande sem parar. Tudo o que é produzido aqui é indeterminado, ainda não adotado por ninguém ou definido enquanto sujeito de predicados, e, em última instância, toda esta produção, todo este fluxo, vem a se conectar, em um sistema íntegro e uno, à próxima superfície, a superfície de registro-controle.

Se a superfície de produção é esquizofrênica em essência, esta é patológica, problemática, e remete à neurose e à paranoia. Mais uma vez, referimo-nos, aqui, à lógica de funcionamento das patologias: a superfície de registro-controle é um filtro que decide quais fluxos produtivos têm seus fios cortados e quais podem se conectar ao restante do sistema, passando a se reproduzir e influir noutras máquinas, que, por sua vez, os absorvem e se transformam. Como um guardião, a superfície de registro-controle define o que vem a se tornar estigma, e, assim, ilustra o status quo. O que se manterá na superfície e o que será marginalizado - esta é a função natural da superfície de registro-controle. À sociedade, ao menos externa ou coletivamente, não há o fluxo infinito remetente à produção, mas, antes, este fluxo, remontado e recortado pela superfície de registro-controle, em um grau finalmente definido. Uma instituição ilustrativa da segunda superfície é o Estado, que, por meio do monopólio da violência, configura, em muito, o caráter do status quo social, e, neste sentido, age de forma paranoica, neurótica, para com quem o contraria e para com os fluxos energéticos que busca marginalizar. Daí a razão, em função da vigília e desconfiança constante de uma gigantesca parte das instituições, costumes e movimentos que constituem a superfície de registro-controle, de chamarmos esta superfície de patológica.

A esquizoanálise, neste sentido, se baseia em romper os filtros da superfície de registro-controle em nome de um fluxo particular, ainda produtivo e não-manifestado, mas que interessa o esquizoanalítico. Se, por exemplo, busca-se trazer mais direitos a homossexuais, se é este o fluxo que interessa, cumpre definir por quais meios, e em quais contextos, a superfície de registro-controle obstrui o caminho deste fluxo e o seu contato com as demais máquinas, e, a partir daí, se destrói este filtro particular, visando liberar a passagem. Naturalmente, como está provavelmente evidente a esta altura, a esquizoanálise é um mecanismo dependente, contextual, como que uma função computacional que requer parâmetros adicionais. Não se pode falar de uma receita universal da esquizoanálise para além do método porque, como um mapa, depende de onde se quer ir e quais as condições da viagem.

Neste ponto, podem surgir algumas dúvidas quanto à excessiva caracterização e originalidade de Deleuze e Guattari na classificação destes termos e método. É que, de certa forma, vêem no controle, na determinação em si mesma, característica dos fluxos que passam à segunda superfície, mas não presentes na primeira, um problema impossível de se ignorar. Diz Deleuze em A Lógica do Pensamento: "A filosofia deve criar conceitos que rompam com as formas estabelecidas de pensamento e abram novas possibilidades de sentido." Em uma constante guerra contra as determinações, contra as distorções que ocorrem no pulo de uma superfície a outra (diz ele, no mesmo livro, que "nada sobe à superfície sem mudar de natureza."), entra, aqui, um dos pontos fundamentais - e possível razão de toda a catalogação exposta - do pós-modernismo: a negação de controle, da fixação, da determinação enquanto funcionalidade intrínseca e particular. Da redução ao estágio de máquina. Certas palavras encerram em si mesmas estigmas que, por vezes, trazem consigo consequências indesejáveis, a exemplo da noção de gênero, e, neste sentido, buscam os aceleracionistas de esquerda, muito influenciados por Deleuze e Guattari, pluralizar esta noção ao ponto de esvaziá-la, de reduzi-la a pó, quebrando por completo o fluxo energético que a superfície de registro-controle inicialmente favoreceu e abrindo, se não positiva, negativamente, caminho para um novo fluxo, em que a liberdade emerge das ruínas, em que se pode expressar, vestir e agir conforme se queira sem que sejamos presos em caixas particulares, distintivas, que trazem consigo uma obrigação indireta, indiferente, à adequação às normas de gênero. Por outro lado, a própria divisão social do trabalho, no sistema capitalista, nos reduz, mais uma vez, a uma caixa repleta de funcionalidades já estabelecidas, que nos impedem de expressar e agir conforme os fluxos que queiramos libertar se locomovem: como órgãos, que agem sempre da exata mesma maneira e não têm a menor possibilidade de escapar do seu trágico destino, somos reduzidos à condição maquínica e repetitiva da condenação funcional, e dela não saímos sem que morramos antes. As frentes de dissolução requeridas ao pós-moderno, se não rumo à liberdade política (que, no entanto, é consequência direta da libertação anterior), rumo à liberdade individual, são incontáveis, e perpassam o imaterial, como no exemplo conceitual, rumo também ao material, como no exemplo econômico proposto. Em certo sentido, o fim último da filosofia pós-moderna é a extinção completa da superfície de registro-controle, liberando, em caos completo, todo e qualquer fluxo energético que surja em cada um de nós, e permitindo infinitas expressões, infinitas pluralidades e todos, infinitos saberes, desejos, virtudes, mudanças, noções.

Outros pós-modernos não-deleuzeanos, como Foucault, também se preocuparam com a questão do controle; este, no entanto, o fez de maneira um tanto mais objetiva, e, aliás, excedeu os limites do que normalmente se entende como poder disciplinar rumo a um poder contínuo, a um fluxo indireto, mas sempre presente, de controle. Foucault, em Microfísica do Poder, nos aponta algo interessante: “O poder não é algo que se possui; ele circula e se exerce em relações, ações e discursos. Ele está em toda parte.” Não se trata, aqui, do homem que açoita seu subordinado na medida em que não é obedecido; pelo contrário, as dinâmicas de poder, mais fluidas e sutis que nunca, se apresentam de maneira estrutural, oprimindo, sem que na presença de qualquer açoitador ou chicote ainda possamos ver seus fantasmas, cada um dos cidadãos de uma sociedade que se fundamenta em poder. É aí, no momento em que todos estão sendo vigiados pela própria estrutura, que a vigilância deixa de ser procedimento e se torna padrão. Que todos estão sendo vistos sem que vejam quem os está vendo. Que o pan-óptico se forma em sua maior pureza e essência. Em Vigiar e Punir, uma sutil descrição do pan-óptico revela o quão onipresente é o poder e o controle na medida em que estes se fragmentam rumo à sua forma superior, a forma social: “O modelo panóptico permite que o poder se exerça de forma contínua, invisível e automática, como se a própria sociedade se tornasse seu próprio vigia.” Naturalmente, Foucault rejeita o controle em sua totalidade, e, não à toa, se enquadra na corrente pós-moderna citada anteriormente.

É aqui, no entanto, que se apresenta uma questão que, aparentemente, escapou, ou foi sumariamente rejeitada, não com razão, aos pós-modernos: até que ponto é o controle indesejável, e por que deveríamos repudiá-lo em prol da pluralidade? A reprodução maquínica, afinal, e há de se concordar que a automatização, a computação, a cibernética são sinônimos de eficiência e exatidão, traz consigo uma objetividade que se sobrepõe, ou melhor, que se opõe em absoluto às noções mais concomitantes à subjetividade: fraqueza, ineficiência, lentidão, indecisão, entre outros. Politicamente, suas conclusões em muito os aproximou do anarquismo, e, no entanto, não posso deixar de pensar que a inversão da negatividade destes termos seja, por sua vez, extremamente desejável à sociedade. Isto é, que sejam todos submetidos ao poder, ao controle, à eficiência, à cibernetização última das almas e desejos - este, sim, é o projeto último, final, de uma sociedade. A redução das particularidades, é verdade, nos é desejável, mas apenas na medida em que esta redução não pula à indeterminação, mas, antes, à determinação homogênea, produtiva, cibernetizada e maquinizada: o homem, enquanto homem, deixando de sê-lo e rumando ao estágio pós-humano, entortando sua inteligência orgânica rumo à artificialidade robótica que o espera, e, enfim, encontrando-se no estágio de máquina, reduzido àquilo em que é melhor, ao posto que lhe é devido. Sem frustrações ou atrasos, sem remorsos, e, o que soa ainda mais chocante ao pós-modernismo, sem desejos! O amor à liberdade, característico do Ocidente moderno e do período ao qual cunhamos o termo modernidade política, é, ele mesmo, detestável - e não há político que se preze que renegaria a eficiência, a ordem, a maximização dos outputs. Acontece que a liberdade que tanto se alimenta é quem faz o papel de carrasco em relação à eficiência que nos é prometida. Não se trata, aqui, de um controle indisposto e indigente, é óbvio, mas de uma força superior ao indivíduo que o reduza de suas particularidades rumo à IAficação, à transformação deste sujeito em uma máquina que reproduz, mas também produz, e que não mais influi em nenhuma outra porque já não porta mais consigo o poder de fazê-lo.

Em outras palavras, a destruição da superfície de registro-controle, para nós, deveria, em verdade, ser a sua superação, aprimoração, rumo a um estágio ainda mais eficiente. E, neste sentido, o pan-óptico, as relações de micropoder e toda e qualquer hierarquia, que substitua a pluralidade dos fluxos energéticos e os filtre com uma dose nula de pluralidade, são desejáveis. Ocorre que, a nós, e à sociedade, objetivamente, trata-se de uma melhor escolha a completa positivação de tudo o que é, no pós-modernismo, criticado. É bem verdade que esta posição não é humanista em absoluto, e em pouco se preocupa com os valores cunhados como universais e absolutos do Universalismo, do qual já tratei noutro texto. É, no entanto, por esta razão que nos dizemos pós-humanos, ou, ainda, Iluministas das Trevas (na medida em que reduzimos ao nada todo o aparato ideológico-moral do iluminismo); é também a razão de a corrente NRx [1] ser aquela que deveria, sem mais, reivindicar o termo de "pós-moderna", não porque se identifica com quem assim é rotulado por padrão, mas justamente porque renega absolutamente todas as conclusões destes, e, nesta negação, nega também os valores que constituem a precisa modernidade que dizem ter superado. Naturalmente, também é esta a razão de o reacionarismo aqui ser futurista, por mais paradoxal que soe, na mesma medida em que não o é: aponta Nick Land, em The Idea of Neoreaction, que "the way out cannot be the way in": os neo-reacionários não têm como fim regredir, de maneira artesanal, ao passado, ou a sistemas passados, ou a noções passadas, mas, antes, romper com o Universalismo rumo a um futuro absoluto, impiedoso, tecnificado. Ao mesmo tempo, no entanto, o termo remete à época anterior ao iluminismo, quando seus valores ainda não eram consolidados, e, neste sentido, o saudosismo traz o caráter reacionário do qual o título extrai sua semente.

Repetir o mantra neo-reacionário é positivar todos os fenômenos pós-modernos e reforçá-los, extremá-los, rumo à explosão da própria noção de humano em prol da de máquina. É saber que a distorção temporal, ao invés de nos levar ao passado, nos leva ao futuro, e a um futuro de vigia, de força, de poder e de absoluto ódio contra a ineficiência. É uma guerra cultural que, no campo geopolítico, já é travada em muitos sentidos na guerra Ocidente e Oriente (tópico já coberto em outro artigo), e que é de vida ou morte. Ou completa destruição do futuro, ou seu reino absoluto na métrica do tempo. Voilá!

[1] NRx é uma mera sigla que representa o movimento neo-reacionário, ou o Iluminismo das Trevas, que, dentre outras figuras relevantes, contém Curtis Yarvin e Nick Land.

Go back.